Rebobina Aí
Rebobina Aí
Cinema para pensar o mundo
Por Patrícia C. Gazire
Patrícia Cabianca Gazire é psicanalista, escritora e cinéfila. Professora da Psiquiatria da EPM/Unifesp, doutora em Psicanálise e Escrita Criativa e fundadora do ambulatório Pulsex. Na coluna Rebobina Aí, aproxima cinema, literatura e psicanálise.
Toda sexta-feira na Rádio Silva, às 16h
As colunas e artigos de opinião publicados pela Rádio Silva refletem exclusivamente o ponto de vista de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião ou a linha editorial da rádio ou da Unifesp.
Exibido em 07/08/2026
Direção: André Novais Oliveira, 2024
Disponível na Apple TV e no Globoplay
O filme O Dia Que Te Conheci (2024), dirigido por André Novais Oliveira, foi o escolhido para inaugurar esta coluna. Não só pelo título, que marca um dia importante de encontro — meu com vocês —, mas porque seu tema mostra como imagens e palavras podem nos ajudar a pensar os acontecimentos do mundo.
O filme trata de um rapaz, Zeca, interpretado por Renato Novais, que não consegue acordar a tempo para o trabalho.
Por mais que ele tente, algo falha: o amigo que devia acordá-lo esquece de acordá-lo, o ônibus passa e ele não consegue alcançá-lo, depois consegue, mas o ônibus quebra no caminho.
Enquanto esperam o ônibus que vai substituir aquele em que viajavam e que quebrou, Zeca e outro passageiro atravessam uma passarela para o outro lado da estrada para matar o tempo comendo um pastel. Mas o pastel nunca sai e eles precisam voltar correndo para não perder o outro ônibus.
Um filme que é pura imagem, cheio de poesia, poesia que vem das imagens. Imagens do tempo que demora e do tempo que escapa. Imagens da distância, do tão perto, do calor, do trabalho, do cansaço. Imagens que dizem mais sobre as diferenças — de cor, de tempo, de idade — do que os diálogos. Imagens simples, mínimas, que falam da desilusão, das situações difíceis da vida, da rotina que se arrasta.
O cotidiano passa, e, quando tudo parece o mesmo, acontece um encontro: Zeca pega carona com Luísa, papel de Grace Passô, para voltar para casa, mas o trânsito das seis da tarde da sexta-feira não ajuda: eles ficam “emperrados” e a conversa se espalha “preguiçosa” por vários assuntos, inclusive abordando o tema do remédio que ele toma para depressão. Curioso é que esse momento da conversa tão banal é o ponto que mais une os dois: eles ficam próximos naquilo que sofrem. O que parecia vazio acaba produzindo uma intimidade inesperada, e essa transformação marca um dos grandes momentos do filme.
Como a amiga não aparece, Luísa convida Zeca para tomar uma cerveja. E é aí, no meio desse desencontro, que o filme dá uma virada sutil e misteriosa. A noite se desenrola de um jeito que transforma aquela conexão inesperada entre os dois. Na manhã seguinte, um pequeno e doloroso acidente cotidiano com Zeca serve como cena perfeita para nos deixar uma mensagem: os pequenos tropeços e o sofrimento fazem parte; e a vida continua…
Certa vez, perguntei para o André de onde vinha esse cinema contemplativo onde as personagens observam o mundo sem poder interferir e sem saber muito o que fazer com o andamento das coisas. André explicou que, quando era criança, morava com sua família em uma casa que tinha um jardim lindo, onde ele ficava sentado por horas olhando as árvores, os pássaros, o movimento da natureza. Aquilo era tão bonito, tão bom e tão importante, que, quando ele encontrava alguém fora de casa, queria trazer a pessoa para dentro daquele mundo contando aquilo que ficava em sua memória.
Assim são seus filmes: uma volta às imagens, como nos sonhos que, sem explicar nada, organizam nossa experiência do mundo.