Rebobina Aí
Rebobina Aí
Cinema para pensar o mundo
Por Patrícia C. Gazire
Patrícia Cabianca Gazire é psicanalista, escritora e cinéfila. Professora da Psiquiatria da EPM/Unifesp, doutora em Psicanálise e Escrita Criativa e fundadora do ambulatório Pulsex. Na coluna Rebobina Aí, aproxima cinema, literatura e psicanálise.
Toda sexta-feira na Rádio Silva, às 16h
As colunas e artigos de opinião publicados pela Rádio Silva refletem exclusivamente o ponto de vista de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião ou a linha editorial da rádio ou da Unifesp.
Exibido em 25/09/2026
Direção: Ruben Östlund, 2026 (Suécia/ França/ Alemanha/ Dinamarca)
Disponível no Prime Video, HBO Max e outras plataformas de streaming
Em 2022, na abertura da 46ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, quem entrava na Cinemateca recebia um simpático “olá” e um “saquinho oficial de vômito” para assistir ao filme Triângulo da Tristeza. O filme é dirigido pelo sueco Ruben Östlund e foi vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes em decisão polêmica do júri.
Logo nas primeiras cenas, descobrimos que ‘triângulo da tristeza’ é o nome dado às rugas que se formam entre os olhos — aquelas que revelam apreensão, angústia, desconsolo.
O filme permanece atual porque é uma sátira dos sistemas políticos e das relações de poder no hipercapitalismo. A história gira em torno de um casal formado por Yaya, influencer, e Carl, um modelo. Eles embarcam em um cruzeiro de luxo ao lado de milionários: um casal de russos, outro casal de ingleses traficantes de armas e um capitão abertamente comunista, entre outros.
A partir das relações entre os passageiros, a tripulação e o comandante, mostradas com indignação e comicidade, o diretor constrói uma contundente crítica ao mundo em que vivemos. O barco enfrenta uma tempestade e, antes do naufrágio, a câmera treme com raios e ondas, acompanhando os passageiros que vomitam e evacuam após um banquete de comidas “phynas” (grafado assim mesmo, com “phy-”). Destaque para a cena em que o americano marxista toca o hino do Partido Comunista no alto-falante, imediatamente identificado pela plateia, que canta junto. O russo milionário responde citando frases pró-capitalismo de Ronald Reagan e Margaret Thatcher.
Há oito sobreviventes que acabam em uma ilha deserta. Entre eles, a única pessoa que sabe pescar e acender a fogueira é a filipina que, no navio, cumpria a função de camareira.
Acompanhamos, então, uma inversão dos papéis e das relações de poder, que passa por questões de raça e gênero e pela subversão da hierarquia entre homens e mulheres, com a menção ao matriarcado, por exemplo. Na ilha, a inversão também ocorre entre a civilidade pomposa e superficial e a barbárie do “salve-se quem puder”.
Resta a “dúvida cruel” colocada pelo crítico Luiz Zanin Oricchio: a arte precisa ser sutil, se a vida não o é?
Uma “visão de mundo” se delineia no filme: não importa o ângulo – três ou mais – a partir do qual observamos os regimes em que vivemos — democracia, totalitarismo, comunismo, capitalismo etc. — há sempre algo da natureza humana que acaba corrompendo as relações.
É isso que sai de dentro de nós: vômito e merda. Tudo para dentro do “saquinho” distribuído na entrada da sessão, que, ao término, pode ser jogado no lixo.
Exibido em 18/09/2026
Direção: Oliver Parker, 2009
Disponível na Prime Video e na Apple TV
Se você pudesse permanecer jovem para sempre, você aceitaria? E se, em troca, todo o desgaste da idade, da culpa e das escolhas da sua vida aparecesse em um retrato escondido no sótão?
É essa a premissa de O Retrato de Dorian Gray, filme de 2009 dirigido por Oliver Parker e baseado no romance de Oscar Wilde. Embora a história tenha sido escrita no século XIX, ela parece falar diretamente com o nosso tempo.
Dorian é um jovem lindo que deseja conservar para sempre sua beleza e sua juventude. Seu desejo se realiza: ele continua exatamente igual, enquanto um retrato envelhece em seu lugar. Mas aquele quadro não registra apenas a passagem do tempo. Ele passa a revelar tudo aquilo que Dorian tenta esconder: seus excessos, sua culpa, sua violência e a degradação provocada por uma vida sem limites.
É impossível assistir ao filme hoje sem pensar na sociedade em que vivemos. Nunca houve tanta pressão para parecer jovem, feliz, produtivo e bem-sucedido. As redes sociais multiplicam imagens cuidadosamente editadas. A indústria da beleza promete vencer o envelhecimento. O mercado vende a ideia de que sempre podemos – e devemos – nos tornar uma versão melhor de nós mesmos.
O problema é que ninguém consegue viver apenas da própria imagem.
Quanto mais Dorian tenta preservar uma aparência perfeita, mais perde contato consigo mesmo. O retrato vai acumulando tudo aquilo que ele não suporta reconhecer: o tempo, as perdas, as marcas da experiência. Como se fosse possível esconder a vida atrás de uma fachada impecável.
Talvez seja justamente por isso que essa história continue tão atual. Ela nos lembra que o sofrimento não desaparece porque deixamos de olhar para ele. Ao contrário: quanto mais tentamos escondê-lo, mais forte ele retorna.
Oscar Wilde escreveu essa história na Inglaterra vitoriana, uma sociedade marcada pelas aparências e por rígidos padrões morais. Mais de um século depois, esses padrões mudaram de forma, mas não desapareceram. Continuamos cercados por ideais de beleza, sucesso e felicidade que parecem sempre estar um passo além do que conseguimos alcançar.
Embora seja construído como um thriller gótico, sua dimensão mais perturbadora talvez não esteja no retrato. Está na fantasia de que seria possível viver sem envelhecer, sem perder, sem falhar e sem enfrentar os próprios limites.
É isso que mantém essa história tão atual. Porque, no fundo, todos nós temos alguma imagem que gostaríamos de preservar e outra que preferimos esconder. E, se os bons filmes são aqueles que permanecem atuais mesmo quando o mundo muda, O Retrato de Dorian Gray continua merecendo ser rebobinado.
Exibido em 11/09/2026
Direção: Grace Passô, 2026
Em cartaz nos cinemas
Hoje vamos falar de um filme belíssimo, dirigido pela dramaturga e atriz Grace Passô.
Ao estrear como cineasta, Passô adapta para o cinema a peça de sua autoria, Amores surdos. O longa foi premiado no Festival de Gramado deste ano.
A história se passa, em sua maior parte, dentro da casa de uma família de pessoas pretas, no subúrbio de Belo Horizonte.
Depois de uma sequência inicial em que se conversa sobre a saudade, entram em cena, uma a uma, as personagens que, com suas histórias particulares, vão compondo uma história familiar.
Cheia de silêncios e mistérios, a sucessão de imagens e a música conduzem a narrativa, que vai tecendo seus sentidos com poucas palavras.
A trama se constrói em torno de Tutu, vivido pelo menino Efraim Santos, o caçula da família. Tutu parece guardar um segredo e procurar uma palavra que os adultos não conseguem dizer.
Ao mesmo tempo, a casa treme e sangra: lama e sangue escorrem pelas paredes enquanto escutamos rugidos que parecem anunciar a presença, no andar de cima, de uma criatura monstruosa.
Aos poucos, a alegoria começa a ganhar contornos mais nítidos.
Estamos diante de um pai que morreu de repente, deixando para a família um luto por elaborar. Tutu se debate para encontrar sentido para a dor familiar que permanece sem nome. Ao fazer perguntas de criança — aparentemente ingênuas, só aparentemente — ele acaba ajudando os adultos a se confrontarem com suas próprias dores.
Porque suas perguntas são, na verdade, muito sagazes.
Desde as cenas iniciais, o filme toca também no tema do racismo. A única personagem branca não pode entrar na casa, e Tutu diz: “há pessoas negras que acham que são brancas”.
Essa frase toca em uma das questões centrais do racismo no Brasil: a internalização da branquitude como ideal e os efeitos de apagamento e desidentificação que o racismo pode produzir.
É então que o mistério começa a se revelar: o sangue e os urros vêm de uma “hipopótama muito sensível”, nas palavras de Tutu, que está sangrando e tem fome.
A ideia de colocar a “hipopótama” em cena lembra o cinema surrealista, que fazia aparecer vacas em meio aos salões nobres, produzindo um estranhamento pelo simples deslocamento dessas imagens. Lembra também o rinoceronte de E la nave va, de Federico Fellini, e o jumento de Durval Discos, dirigido por Anna Muylaert. O recurso ao fantástico é uma ferramenta poderosa para expressar emoções e realidades que o realismo, por si só, não consegue capturar.
A partir daí, podemos pensar a “hipopótama” como uma ferida. Ao morrer de repente e deflagrar o processo de luto na família, o pai — ou sua ausência — abre uma fenda devoradora. A hipopótama, com sua boca aberta e sua garganta profunda, dá forma a essa dor.
Ela parece condensar não apenas o sofrimento provocado pela morte do pai, mas os traumas de muitas gerações de uma família que tenta encontrar recursos para reconstruir as paredes da casa quando tudo parece desmoronar.
Quando a mãe finalmente explicita para Tutu a morte do pai, aquilo que antes não tinha nome pode, enfim, ser sentido. A tristeza pode ser vivida.
E cada personagem, a seu modo, vai encontrando uma maneira de atravessar esse processo tão difícil.
Um fim que não é uma solução feliz, nem agradável. Porque o fantástico pode dar forma ao que não conseguimos dizer, mas não elimina a realidade do que aconteceu. Apesar de todas as suas camadas simbólicas e metafóricas, Nosso Segredo permanece ancorado na realidade nua e crua.
Exibido em 04/09/2026
Direção: Aurélio Michiles, 2026
Em cartaz nos cinemas
Hoje a gente vai rebobinar uma história interrompida.
Honestino é um filme essencial. Misto de documentário e ficção, com Bruno Gagliasso no papel principal, conta a história do desaparecimento de Honestino Guimarães, estudante de Geologia na Universidade de Brasília e presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE). Figura central da resistência estudantil contra a ditadura militar, Honestino viveu anos na clandestinidade liderando a luta pela democracia antes de ser sequestrado, em outubro de 1973, aos 23 anos. Preso, torturado e assassinado pelo Estado brasileiro, seu corpo nunca foi encontrado.
A história é contada por meio de depoimentos de familiares, amigos e companheiros de militância, que ajudam a reconstituir os anos sombrios da ditadura militar.
Logo no início, em preto e branco, um homem caminha por uma passagem subterrânea. Quando a imagem ganha cor, Honestino entra em cena e anda de costas para a câmera. No teto do túnel, fileiras de lâmpadas lançam uma luz fria que contrasta com a claridade natural das aberturas laterais. O chão está coberto por uma fina camada de água, e as paredes, por cartazes e pichações. De repente, ele começa a correr, como se fugisse de alguém ou de alguma coisa.
Esse parece ser o recorte escolhido pelo diretor, Aurélio Michiles: Honestino está sempre fugindo, se escondendo, correndo. Ainda assim, o filme nos mostra um homem cuja vida pessoal é cativante. Era feliz, esperançoso e divertido, apaixonado pelo futebol e pela família. Tinha um grande carisma pessoal. Onde chegava, contam, assumia rápido o papel de líder.
Há uma fotografia em que ele está deitado no colo da filha Juliana. Aos quatro anos, ela quer abraçar o pai. Seus olhos estão assustados, como se sentisse medo por ele. Há uma inversão nessa imagem: é como se a criança, ainda muito pequena, precisasse cuidar do pai.
Em uma cena de ficção, vemos um formigueiro. Os óculos de Honestino caem no meio das formigas. Sabemos que, em uma das sessões de tortura, ele foi jogado em um formigueiro. Era um método usado para fazer os presos revelarem onde estavam escondidos outros militantes. Honestino não falou.
Juliana tem hoje 50 anos e diz, angustiada, que quase não tem memória do pai. Tem as fotografias e a lembrança de uma cena: ela está num balanço e Honestino está atrás, olhando. Juliana não sabe se aquela cena aconteceu. Talvez não tenha acontecido. Mas é a imagem que sua memória insiste em devolver.
Por isso, Honestino é essencial: porque nos lembra que a memória não é feita apenas daquilo que podemos provar que aconteceu. Ela pode sobreviver numa fotografia, num rosto, num gesto, numa cena que talvez tenha acontecido. É preciso escutá-la para que aquilo que tentam apagar não desapareça completamente.
Exibido em 28/08/2026
Direção: Jorge Furtado, 2026
Em cartaz nos cinemas
Como uma história de amor pode surgir em meio a um trabalho de gravação de filmes pornográficos? É essa a pergunta provocativa que Muito Prazer, novo filme de Jorge Furtado, nos lança.
Sim. É nesse jogo metalinguístico, em que os filmes são feitos dentro do próprio filme, que o amor acontece.
O escritor italiano Umberto Eco dizia que uma história pode ensinar três coisas: sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre a própria maneira de narrar uma história.
Quando uma história aparece dentro da outra, temos o que se chama mise-en-abîme. É o que acontece em Hamlet, quando o príncipe encena uma peça para tentar descobrir quem matou seu pai.
Em Muito Prazer, esse jogo entre uma história e outra faz com que as fronteiras entre ficção e realidade fiquem cada vez menos nítidas.
Na trama, Rubem, um motorista de aplicativo interpretado por Daniel de Oliveira, recebe de herança do tio o motel Pérola. Logo descobre que o lugar está falido e em ruínas. Ao chegar, quase é morto por Grace, única habitante do local, vivida por Luísa Arraes. Os dois iniciam uma relação de amizade enquanto tentam fazer o motel funcionar.
Para conseguir dinheiro, eles vendem, na internet e sem autorização, vídeos eróticos dos clientes. É aí que entra Nalva, interpretada por Samantha Jones. Ela trabalha com câmeras de vigilância e usa inteligência artificial para criar deepfakes – aqueles vídeos manipulados que trocam o rosto das pessoas.
Grace é uma jovem amedrontada que gosta de fotografar nuvens em movimento. Para ela, as nuvens são como as pessoas: cada pessoa tem uma nuvem de um jeito. Rubem tem, inicialmente, uma única meta: ganhar dinheiro. Nalva, por sua vez, tem dívidas. Quando os três se juntam, começam a acontecer coisas cômicas e trágicas.
É assim, com criatividade e sem ser explicativo, deixando as imagens falarem por si, que o filme encanta.
Além de cenas divertidas e uma história muito bem montada e amarrada, o filme tem uma trilha sonora que se conecta perfeitamente com a narrativa.
Mas o filme vai além.
Ele traz uma discussão importante sobre como a internet e a inteligência artificial modificam nosso jeito de viver a sexualidade.
Essa transformação é ambígua. Por um lado, as relações sexuais com contato físico parecem perder espaço – uma mudança que se tornou especialmente evidente depois da pandemia. Por outro, encontramos mil e uma maneiras de nos satisfazer, mil e um fetiches, não necessariamente através do contato físico.
O longa também suscita debates urgentes sobre a ética nas redes sociais, o uso não consentido de imagens íntimas, a exploração sexual de adolescentes e a violência sexual digital.
Tudo isso diz respeito aos limites para uma prática que beira o ilimitado. O céu é o limite? Como nas fotos das nuvens tiradas por Grace? Até onde podemos ir com as imagens modificadas sem ferir o próximo?
Bem, o próprio filme dá suas reviravoltas: de uma relação de negócios e de amizade, faz nascer o amor. De uma prática inicialmente clandestina, abre-se uma possibilidade profissional: a de atriz pornô.
O algoritmo pode restringir possibilidades, ao nos colocar dentro de bolhas. Mas também pode abrir caminhos e nos permitir ver, fazer ou sentir coisas que nunca tínhamos experimentado. O algoritmo trabalha com 0 e 1. Mas o desejo humano é muito mais complexo do que qualquer lógica binária.
Exibido em 21/08/2026
Direção: Christopher Nolan, 2026
Em cartaz nos cinemas
O imenso cavalo está enterrado na areia da praia. Os gregos fingiram desistir da guerra e esconderam soldados no seu interior. Aguardam que os inimigos, os troianos, se enganem com o “presente dos deuses” e abram os portões da cidade. É quando, guiados por Odisseu (Ulisses), vivido por Matt Damon, nesta grande produção do Christopher Nolan – os gregos entram na cidade e devastam Troia.
Como em outros filmes de Christopher Nolan, a narrativa avança em flashbacks e o diretor nos convida a reconstruir a memória de Odisseu junto com ele.
Diante do massacre, Odisseu se abate. Esse é o mote da história escolhida por Nolan. O filme trata o famoso “presente de grego” como a ruptura de um dos fundamentos da convivência humana: a confiança nas palavras. É como se isso inaugurasse uma “maldição” da qual a humanidade nunca mais vai se livrar – uma história de ódio, disputa e destruição ao longo dos séculos.
Odisseu quer retornar à Ítaca. Está culpado e triste, e vai reencontrar Penélope, interpretada por Anne Hathaway. Ela o aguarda há anos, tecendo e desfazendo a mesma mortalha para afastar os pretendentes ao trono.
Mas, quando o filme o reencontra, ele está só. Nesta adaptação, Odisseu surge sem memória, aprisionado na ilha da ninfa Calipso, após um naufrágio.
A essa altura, ele já viveu as aventuras clássicas que fizeram dele uma lenda: a ilha dos ciclopes, onde ele cega o gigante Polifemo; o encontro com a deusa Circe que transforma seus homens em porcos; o canto mortal das sereias, ao qual sobrevive amarrado ao mastro do barco – um canto que o faz lembrar daquilo que desejou e que jamais poderá reaver.
O retorno à Ítaca marca uma entrega ao destino. Odisseu se prende a um bote simples e se lança ao mar, sem provisões e sem proteção, sozinho. A sequência sugere que já não é a força do herói que o conduz, mas o próprio destino.
Ele chega a Ítaca como um mendigo. Nolan propõe, aqui, que a condição da humildade não é um ponto de partida, mas uma conquista alcançada pela perda, pela culpa e pelo sofrimento.
Antes do combate final, Telêmaco pergunta à mãe, Penélope: “Você quer guerra?” Ela responde: “Quero Odisseu”.
Odisseu retorna transformado, após passar por uma série de provações. Está melhor? Difícil dizer. Está velho e sofrido.
Na adaptação de Christopher Nolan, os deuses ocupam um papel muito mais distante dos homens do que ocorre na mitologia grega. Daí o desamparo de Odisseu, transformado num herói “demasiadamente humano” que carrega culpa e solidão.
Exibido em 14/08/2026
Direção: Olivia Wilde, 2026
Em cartaz nos cinemas
Hoje, vamos falar sobre O Convite, filme dirigido por Olivia Wilde, que já está em cartaz nos cinemas.
“Devemos estar sempre apaixonados. Essa é a razão por que nunca devemos nos casar”. Essa frase de Oscar Wilde, escrita no fim do século XIX, é a epígrafe que dá o tom da história. Ela ironiza a hipocrisia por trás dos casamentos e critica as convenções sociais. Hoje, o filme nos convida a perguntar: o que eu quero nessa relação? Ou: o que eu quero dessa relação?
Um casal em crise convida os vizinhos do andar de cima para jantar. A princípio, o encontro parece uma simples tentativa de aproximação. Aos poucos, porém, surgem alfinetadas, conflitos, revelações íntimas, concordâncias, desavenças e alianças inesperadas, como num jogo em que, a cada lance, os jogadores mudam de lado. Até que ficamos sabendo que um dos casais não faz sexo há mais de um ano. A partir daí, entram em cena conversas francas sobre sexo, desejo e fantasias. Também passamos a conhecer as histórias de cada personagem, assim como as histórias de suas relações.
Sem dar mais spoiler, o filme parece montado em espelhos. Um casal funciona como espelho do outro, levando o público por um labirinto de situações que produzem boas risadas como há tempos eu não via no cinema.
Mas, depois de toda tensão, quando, no fim das contas, nada vai às vias de fato, o filme muda de tom: tudo o que parecia hilário se transforma em drama. O casal convidado desaparece de repente, sugerindo que talvez tenha voltado ao andar de cima. Isso nos devolve à imagem dos espelhos. Talvez o ‘casal de cima’ não seja apenas um casal, mas um recurso narrativo que permite ao ‘casal de baixo’ confrontar seus próprios impasses.
Saímos da sessão, no meio daquela sala cheia – sim, a sala do cinema de rua estava lotada! – pensando em como é difícil cuidar das relações que realmente importam e como é complexo administrá-las. A paixão e o tesão, como disse Oscar Wilde, podem se dissipar, enquanto o amor e o casamento envolvem perdas, desacordos e, ao mesmo tempo, escolhas e decisões.
Nietzsche dizia que o riso pode ser uma expressão de força, e não de superficialidade. O Convite parece apostar justamente nisso: faz rir para que possamos encarar, com coragem, as dificuldades de amar. É aí que reside o encanto do filme. Vale destacar as excelentes atuações das mulheres que trazem uma profundidade ainda maior à narrativa.
Exibido em 07/08/2026
Direção: André Novais Oliveira, 2024
Disponível na Apple TV e no Globoplay
O filme O Dia Que Te Conheci (2024), dirigido por André Novais Oliveira, foi o escolhido para inaugurar esta coluna. Não só pelo título, que marca um dia importante de encontro — meu com vocês —, mas porque seu tema mostra como imagens e palavras podem nos ajudar a pensar os acontecimentos do mundo.
O filme trata de um rapaz, Zeca, interpretado por Renato Novais, que não consegue acordar a tempo para o trabalho.
Por mais que ele tente, algo falha: o amigo que devia acordá-lo esquece de acordá-lo, o ônibus passa e ele não consegue alcançá-lo, depois consegue, mas o ônibus quebra no caminho.
Enquanto esperam o ônibus que vai substituir aquele em que viajavam e que quebrou, Zeca e outro passageiro atravessam uma passarela para o outro lado da estrada para matar o tempo comendo um pastel. Mas o pastel nunca sai e eles precisam voltar correndo para não perder o outro ônibus.
Um filme que é pura imagem, cheio de poesia, poesia que vem das imagens. Imagens do tempo que demora e do tempo que escapa. Imagens da distância, do tão perto, do calor, do trabalho, do cansaço. Imagens que dizem mais sobre as diferenças — de cor, de tempo, de idade — do que os diálogos. Imagens simples, mínimas, que falam da desilusão, das situações difíceis da vida, da rotina que se arrasta.
O cotidiano passa, e, quando tudo parece o mesmo, acontece um encontro: Zeca pega carona com Luísa, papel de Grace Passô, para voltar para casa, mas o trânsito das seis da tarde da sexta-feira não ajuda: eles ficam “emperrados” e a conversa se espalha “preguiçosa” por vários assuntos, inclusive abordando o tema do remédio que ele toma para depressão. Curioso é que esse momento da conversa tão banal é o ponto que mais une os dois: eles ficam próximos naquilo que sofrem. O que parecia vazio acaba produzindo uma intimidade inesperada, e essa transformação marca um dos grandes momentos do filme.
Como a amiga não aparece, Luísa convida Zeca para tomar uma cerveja. E é aí, no meio desse desencontro, que o filme dá uma virada sutil e misteriosa. A noite se desenrola de um jeito que transforma aquela conexão inesperada entre os dois. Na manhã seguinte, um pequeno e doloroso acidente cotidiano com Zeca serve como cena perfeita para nos deixar uma mensagem: os pequenos tropeços e o sofrimento fazem parte; e a vida continua…
Certa vez, perguntei para o André de onde vinha esse cinema contemplativo onde as personagens observam o mundo sem poder interferir e sem saber muito o que fazer com o andamento das coisas. André explicou que, quando era criança, morava com sua família em uma casa que tinha um jardim lindo, onde ele ficava sentado por horas olhando as árvores, os pássaros, o movimento da natureza. Aquilo era tão bonito, tão bom e tão importante, que, quando ele encontrava alguém fora de casa, queria trazer a pessoa para dentro daquele mundo contando aquilo que ficava em sua memória.
Assim são seus filmes: uma volta às imagens, como nos sonhos que, sem explicar nada, organizam nossa experiência do mundo.