O Que Não Estamos Dizendo
O Que Não Estamos Dizendo
Um convite para ver
Por Josi Martins
Josi Martins é Administradora, Terapeuta da Comunicação (em formação) e servidora da Unifesp. Convida os ouvintes a olhar para o cotidiano com mais presença, consciência e humanidade.
Quinzenalmente, às quartas-feiras na Rádio Silva, às 16h
As colunas e artigos de opinião publicados pela Rádio Silva refletem exclusivamente o ponto de vista de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião ou a linha editorial da rádio ou da Unifesp.
E hoje chegamos ao nosso quarto episódio: O que NÃO estamos dizendo quando pensamos: “Tem que ser do meu jeito”
Até aqui, falamos sobre o medo de mostrar como estamos, de admitir que não sabemos e de reconhecer que precisamos dos outros. De maneiras diferentes, falamos sobre medos que moldam nossas relações.
E eu me lembrei de uma história.
Na faculdade, eu tinha uma tendência a assumir os trabalhos em grupo.
“É mais rápido.”
“Deixa que eu faço.”
“Eu sei como tem que ficar.”
Depois, eu me sobrecarregava, ficava irritada e reclamava que estava fazendo tudo sozinha.
Durante muito tempo, achei que aquilo era responsabilidade.
Hoje eu me pergunto:
Será que eu queria fazer a minha parte ou garantir que tudo acontecesse do meu jeito?
Talvez você reconheça essa cena.
As tarefas são divididas, mas você acompanha cada detalhe.
Confere. Antecipa. Refaz.
Até pensar:
“Quer saber? Deixa que eu faço.”
A gente age como se fazer sozinho, ou fazer do nosso jeito, pudesse garantir o resultado.
Mas será que garante?
Podemos escolher, planejar, agir, e até influenciar, mas não podemos determinar tudo o que acontece.
Na década de 1970, a psicóloga Ellen Langer, da Universidade Harvard, estudou um fenômeno que chamou de “ilusão de controle”.
Em situações envolvendo acaso, ela observou que podemos acreditar que nossas escolhas ou habilidades têm mais influência sobre determinados resultados do que realmente têm.
Isso não significa que todo controle seja uma ilusão.
Mas nos deixa uma pergunta, interessante:
Será que, às vezes, superestimamos o quanto conseguimos determinar o que vai acontecer?
Talvez aquele: “Deixa que eu faço” também possa estar dizendo: “Se for do meu jeito, talvez eu consiga garantir o resultado.”
E essa tentativa aparece de muitas formas.
Tentamos controlar para não perder.
Agradamos para continuar recebendo.
Buscamos a perfeição para merecer.
Cuidamos excessivamente para continuar necessários.
E tudo isso nos mostra algo em comum: a tentativa de garantir aquilo que tememos perder.
Reconhecer os limites do controle não significa desistir.
Significa perceber uma fronteira: o que está nas minhas mãos e o que não está.
A responsabilidade pergunta:
“O que cabe a mim fazer?”
A tentativa de controle pergunta:
“Como faço para garantir que tudo seja como eu quero?”
Talvez a liberdade comece quando percebemos os limites do controle que imaginávamos ter.
Então eu deixo uma pergunta para você levar durante esta semana.
quando surgir aquele pensamento: “Quero que seja do meu jeito.”
Experimente perguntar: O que realmente está nas minhas mãos e o que eu estou apenas tentando controlar?
Até o próximo episódio.
"Não precisa. Eu dou conta."
Talvez você já tenha dito essa frase hoje, ou talvez conheça alguém que a repete o tempo todo.
É aquela pessoa que resolve tudo.
Organiza, cuida, ajuda e está sempre disponível para os outros.
Mas, quando chega a vez dela, só de ouvir um simples: "Posso te ajudar?" . A resposta quase sempre é a mesma.
"Não precisa."
Será que ela realmente não precisa? Ou será que, em algum momento da vida, aprendeu que precisar de alguém era perigoso?
Existe uma ideia muito difundida na nossa cultura.
A de que ser forte é dar conta de tudo sozinho.
Desde cedo ouvimos frases como:
"Seja forte, não chore, você consegue, não dependa de ninguém."
Sem perceber, vamos confundindo força com autossuficiência.
Pesquisas em neurociência relacional mostram que nosso cérebro se desenvolve em conexão com outras pessoas. Nós nos afetamos mutuamente o tempo todo.
Somos seres relacionais.
O pesquisador Stephen Porges, criador da Teoria Polivagal, mostrou algo interessante.
Nosso sistema nervoso está sempre fazendo uma pergunta silenciosa: "Estou seguro aqui?"
Quando encontramos alguém que nos acolhe, nos escuta e permanece presente, nosso corpo responde.
A respiração desacelera, a tensão diminui, o coração encontra outro ritmo.
Antes mesmo de aprender a falar, um bebê aprende a se acalmar no colo de alguém.
Talvez a gente nunca deixe completamente de precisar disso.
Apenas aprenda a esconder.
Então, por que pedir ajuda ainda parece tão difícil?
Talvez porque pedir ajuda envolva um risco.
O risco de ouvir: "Agora não posso.” Depois.” ou simplesmente "Não."
E, para quem já experimentou essa dor, parece mais seguro nem pedir.
Quando dizemos: "Eu dou conta."
Talvez não estejamos tentando controlar a situação. Talvez estejamos tentando controlar a dor que imaginamos sentir caso a ajuda não venha.
Mas existe uma ironia nisso tudo.
Quando recusamos ajuda, não estamos apenas deixando de receber cuidado.
Também estamos impedindo que o outro experimente algo profundamente humano: a alegria de contribuir.
Porque ajudar também gera pertencimento.
Também fortalece vínculos.
Também transforma quem ajuda.
Então eu deixo uma pergunta para você levar durante esta semana.
Da próxima vez que responder: "Não precisa. Eu dou conta."
pare por um instante e pergunte a si mesmo:
Estou protegendo minha autonomia ou estou protegendo uma dor que imagino sentir se precisar de alguém?
"Entendi."
Talvez essa seja uma das palavras que mais repetimos ao longo da vida e uma das que menos significam exatamente o que parecem significar.
Porque, às vezes..."entendi"
quer dizer: "Não quero parecer que não sei."
Pense por um instante.
O professor pergunta: "Ficou claro?"
Você responde:n "Entendi."
O médico termina de explicar o tratamento.
"Ficou alguma dúvida?"
"Não... entendi."
Na reunião de trabalho, alguém explica uma nova tarefa.
Olha para todos e pergunta:
"Tudo certo?"
Todos concordam.
Dias depois, horas mais tarde, cada pessoa faz uma coisa diferente.
Então talvez a pergunta não seja: Será que entendemos?
Talvez seja outra.
Por que temos tanto medo de admitir que ainda não entendemos?
Desde muito cedo, aprendemos que saber merece reconhecimento.
Acertar merece elogio.
Responder rápido parece inteligência.
Sem perceber, vamos aprendendo outra coisa.
Que não saber pode ser constrangedor.
Então fazemos algo muito humano.
Quando a dúvida aparece, em vez de levantarmos a mão, protegemos a nossa imagem.
Sorrimos, concordamos.
E dizemos: "Entendi."
Não porque compreendemos, mas porque, naquele momento, fingir parece mais seguro do que admitir a dúvida e, a lacuna que poderia ter sido resolvida ali, na hora, vira algo que a gente carrega sozinho.
A psicóloga Carol Dweck mostrou que, quando associamos nosso valor à necessidade de acertar sempre, começamos a evitar situações que possam revelar nossas dúvidas. E a neurociência mostra que nosso cérebro tende a evitar aquilo que interpreta como ameaça, inclusive ameaças sociais, como o medo de parecer incapaz diante dos outros.
Não fugimos da aprendizagem.
Fugimos da possibilidade de parecermos insuficientes.
Talvez seja por isso que tantas perguntas nunca sejam feitas.
Tantas conversas terminam cedo demais.
E tantas pessoas carregam dúvidas em silêncio.
Não por falta de vontade de aprender.
mas por medo do julgamento.
E é curioso, porque toda pergunta que você já soube responder hoje, um dia foi uma pergunta que você não soube responder.
Aprender sempre começou com uma pergunta.
Com um erro, com uma tentativa.
Com alguém dizendo:
"Pode me explicar de novo?"
Talvez a verdadeira inteligência não esteja em responder tudo.
Talvez ela comece exatamente no momento em que temos coragem de admitir:
"Ainda não entendi, ainda não sei.”
Então eu deixo uma pergunta para você levar durante esta semana.
Da próxima vez que responder:
"Entendi."
Pergunte a si mesmo:
Eu realmente compreendi ou apenas quis parecer que compreendi?
Porque, às vezes, a pergunta que temos coragem de fazer é justamente o começo da aprendizagem.
Hoje, eu gostaria de começar com uma pergunta simples:
Só hoje, quantas vezes você perguntou: “Tudo bem?”
Agora, eu faço uma segunda pergunta: quantas vezes você realmente esperou para ouvir a resposta?
A expressão “Tudo bem?” talvez seja uma das frases mais repetidas da nossa língua. Ela abre reuniões, cruza corredores, começa aulas, inicia mensagens… E, quase sempre, vem acompanhada de uma resposta automática:
— Tudo.
— Tudo certo.
— Tudo tranquilo.
Mesmo quando não está.
E talvez isso não aconteça porque somos indiferentes; talvez aconteça porque aprendemos, aos poucos, a perceber em quais ambientes uma resposta verdadeira pode ser acolhida e em quais ela pode nos expor.
A professora Amy Edmondson, da Harvard Business School, pesquisa há décadas como as pessoas aprendem e trabalham em equipe. Em um estudo publicado em 1999, ela apresentou o conceito de segurança psicológica: a percepção compartilhada de que aquele ambiente é seguro para assumirmos pequenos riscos nas relações — como fazer uma pergunta, admitir que não sabemos algo, reconhecer um erro, expressar uma preocupação ou dizer que precisamos de ajuda, sem medo de sermos humilhados, punidos ou vistos como menos competentes.
Segurança psicológica não significa que todos precisam concordar, nem que qualquer conversa será sempre confortável. Significa que existe confiança suficiente para que as pessoas possam falar com honestidade e continuar pertencendo àquele espaço.
Talvez isso nos ajude a compreender por que respondemos “Tudo bem” para algumas pessoas e, diante de outras, encontramos coragem para dizer:
— Na verdade... hoje eu não estou muito bem.
Perceba: a pergunta é exatamente a mesma. O que muda é o quanto nos sentimos seguros para responder com verdade.
E isso, talvez, nos revele algo importante sobre comunicação.