Mirada Feminista
Mirada Feminista
Olhando por esse gênero
Por Priscila Cardoso
Feminista. Mãe solo. Professora Associada da Unifesp. Coordenadora do Grupo de Pesquisa MaternaCiência. Pesquisadora e escritora sobre relações de sexo/gênero, maternidades e violências patriarcais de gênero.
Toda segunda-feira na Rádio Silva, às 16h
As colunas e artigos de opinião publicados pela Rádio Silva refletem exclusivamente o ponto de vista de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião ou a linha editorial da rádio ou da Unifesp.
Exibido em 21/09/2026
Inspirada no livro O Conto da Aia, Priscila Cardoso utiliza a metáfora da água aquecida gradualmente para alertar sobre o risco de erosão continuada dos direitos das mulheres pelo mundo. A apresentadora evidencia como o autoritarismo e a misoginia se consolidam de forma progressiva pela naturalização de discursos de ódio, citando a ascensão da machosfera e propostas extremistas que chegam a questionar o sufrágio feminino.
Apoiando-se em dados da ONU Mulheres sobre retrocessos globais, o episódio enfatiza que conquistas históricas não são permanentes e exigem vigilância constante. A reflexão é encerrada com um trecho do poema de Eduardo Alves da Costa, convocando à ação coletiva imediata antes que a omissão anule a capacidade de resistência.
Exibido em 14/09/2026
Neste episódio, Priscila Cardoso propõe desromantizar a amamentação, desconstruindo a ideia de que o ato seja apenas um "gesto natural de amor" para analisá-lo como trabalho, direito e ato de resistência. Embora órgãos como a OMS recomendem o aleitamento materno exclusivo até os seis meses, no Brasil a duração média desse período não passa de três meses. A apresentadora pondera que amamentar exige um grande esforço físico e emocional da mulher, enfrentando desde dores, fissuras e mastite até o julgamento social por expor o corpo em público e a pressão da bilionária indústria de fórmulas infantis.
O episódio enfatiza a contradição de se cobrar a amamentação exclusiva sem oferecer condições estruturais mínimas para a mulher, tais como licença-maternidade e paternidade adequadas, espaços públicos preparados, redes de apoio e bancos de leite. O amor materno não deve ser medido em mililitros de leite e defender o aleitamento materno significa garantir tempo, renda e direitos para quem deseja amamentar, além de acolher e respeitar integralmente as escolhas de quem não pode ou não quer fazê-lo.
Exibido em 07/09/2026
No episódio alusivo ao 7 de Setembro, Priscila Cardoso propõe uma reflexão sobre a independência feminina. A colunista ressalta que seres humanos são naturalmente interdependentes, de modo que a verdadeira independência diz respeito à autonomia. Embora a sociedade relacione o conceito à autonomia financeira, dados do IBGE apontam que as mulheres ainda ganham menos de 80% do salário dos homens.
Ter renda própria não basta, pois a autonomia envolve também o controle sobre o próprio corpo e o tempo. No Brasil, mulheres dedicam em média 10 horas semanais a mais que os homens ao trabalho reprodutivo. Além disso, a dependência emocional, imposta pelo incentivo cultural de buscar validação em relacionamentos, também limita essa liberdade. A sociedade celebra a mulher independente, mas não garante as estruturas necessárias para que ela exerça suas escolhas de forma livre.
Exibido em 31/08/2026
Neste episódio, Priscila Cardoso faz uma reflexão sobre a necessidade de eleger mais mulheres para os cargos legislativos no Brasil. Ela ressalta o contexto histórico do Brasil, onde o direito ao voto feminino foi conquistado há apenas 94 anos e onde leis retrógradas, como a tutela do marido sobre a mulher e a criminalização do adultério feminino, vigoraram por muito tempo.
Apesar de representarem a maioria da população e do eleitorado, as mulheres ocupam menos de 18% das cadeiras na Câmara dos Deputados e 18,5% no Senado, com uma presença ainda menor de mulheres negras. Contudo, a colunista questiona se "qualquer mulher" serve para ser eleita, ressaltando que a representatividade só faz sentido quando aliada a um compromisso político real com a pauta feminista.
Ela exemplifica com a Lei de Alienação Parental, criada por um homem para punir mães e cuja proposta de revogação foi liderada por três parlamentares mulheres 16 anos depois. Também convoca o eleitorado a apoiar candidatas comprometidas com a diversidade e com a defesa dos direitos de todas as mulheres.
Exibido em 24/08/2026
Episódio aborda os crimes de vicaricídio e as críticas à Lei de Alienação Parental no Brasil. Priscila Cardoso relembra casos trágicos ocorridos em 2026, nos quais pais assassinaram os próprios filhos para punir e causar sofrimento às mães após processos de separação ou denúncias de violência. A apresentadora explica que a violência vicária, agora tipificada como crime de vicaricídio na Lei Maria da Penha, instrumentaliza as crianças como forma de agressão e controle contra as mulheres.
A Lei de Alienação Parental agrava esse cenário ao ser utilizada por homens denunciados por abusos para inverter a acusação contra as mães. Baseada numa teoria sem fundamentação científica reconhecida pela Organização Mundial da Saúde, a legislação brasileira, pioneira no mundo ao mantê-la, acaba fazendo com que mães protetoras percam a guarda dos filhos para os agressores. A colunista destaca a urgência de aprovar a revogação da lei na Câmara dos Deputados, reforçando o posicionamento de entidades de direitos humanos e órgãos internacionais contra o uso do dispositivo.
Exibido em 17/08/2026
Neste episódio, Priscila Cardoso reflete sobre o impacto das férias escolares na rotina das mulheres e a sobrecarga gerada pelo trabalho de cuidado. Ela ressalta que esse período de pausa é um direito fundamental dos estudantes e dos profissionais da educação, mas destaca que poucas famílias têm recursos para oferecer opções de lazer pagas às crianças. Com isso, a responsabilidade recai sobre as mulheres, que precisam se desdobrar entre o trabalho e a atenção aos filhos, muitas vezes sacrificando a própria saúde física e mental e o tempo de descanso.
Ela fundamenta a reflexão com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE, que revelam que as mulheres dedicam quase o dobro de tempo semanal dos homens aos afazeres domésticos e ao cuidado. Além disso, a pesquisa aponta que uma fatia significativamente maior de mulheres assume as tarefas diretas de auxílio pessoal, como alimentar, dar banho e colocar para dormir. A solução para essa desigualdade estrutural passa necessariamente pela coletivização dos cuidados na sociedade.
Exibido em 10/08/2026
Neste episódio do podcast Mirada Feminista, Priscila Cardoso aborda como a divisão do trabalho na sociedade capitalista foi construída de forma desigual, explorando e oprimindo as mulheres. Ela faz um resgate histórico que remonta às origens do capitalismo, passando pela escravização de povos originários e africanos e pelo fim do feudalismo na Europa. Nesse processo, terras foram privatizadas e o modo de vida comunitário deu lugar ao modelo da família nuclear, no qual a sexualidade e a capacidade reprodutiva das mulheres passaram a ser controladas para garantir a transmissão de heranças.
A apresentadora destaca como as mulheres resistiram a essa perda de autonomia sobre seus corpos, saberes e vidas, o que resultou na perseguição e na caça às bruxas como forma de punição e intimidação. Com isso, o trabalho doméstico e de cuidados feito dentro de casa passou a ser invisibilizado e desvalorizado, não sendo reconhecido como trabalho de fato. Essa lógica histórica de colocar o trabalho feminino em segundo plano perpetua até hoje a desigualdade de gênero, a divisão sociossexual do trabalho e diversas formas de violência contra as mulheres.
Exibido em 03/08/2026
No primeiro episódio do podcast, Priscila Cardoso apresenta a proposta de analisar os acontecimentos do cotidiano e do mundo a partir de uma perspectiva feminista. Ela chama a atenção para o fato de que a maioria das análises que consumimos no dia a dia é feita por e para homens, em geral homens brancos. Por isso, o objetivo do espaço é questionar esse padrão e trazer para o debate a realidade, as necessidades e o ponto de vista das mulheres.
Para mostrar como a sociedade define o que é considerado "de menino" ou "de menina" desde cedo, Priscila traz exemplos do dia a dia. Um deles envolve um amigo que, ao ler um livro, imaginou que a criança narradora era uma garota apenas porque falava abertamente de sentimentos e usava a palavra "mamãe". Ela também conta que preferiu não furar a orelha da filha quando ela era bebê, o que gerou pressão das pessoas e fez com que muitos a confundissem com um menino, mostrando como o furo na orelha é encarado como algo quase obrigatório para ser menina.
A apresentadora lembra ainda que essas regras sociais sobre masculinidade e feminilidade não dependem do biológico e acabam justificando diversas formas de violência contra as mulheres. Ela convida quem está ouvindo a acompanhar os episódios semanais e a mandar sugestões de temas, com o desejo de ajudar a construir um mundo com mais segurança e igualdade.