Aprendizagem Ativa na Educação
Aprendizagem Ativa na Educação
Estudantes no centro do ensino-aprendizagem
Por Camilo Lellis
Camilo Lellis é biólogo e Professor Associado do Dep. de Ciências Biológicas da Unifesp. Coordenador do Laboratório de Experimentação e Educação em Fisiologia e do Grupo de Estudos e Pesquisa em Metodologias de Aprendizagem Ativa.
Quinzenalmente, às quintas-feiras na Rádio Silva, às 16h
As colunas e artigos de opinião publicados pela Rádio Silva refletem exclusivamente o ponto de vista de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião ou a linha editorial da rádio ou da Unifesp.
Exibido em 17/09/2026
Alô! Alô, mente curiosa! Bem-vindos e bem-vindas ao Aprendizagem Ativa na Educação, as pílulas de podcast que deixam a sua vida de educador e de aprendiz mais atualizada. Hoje eu quero conversar com você sobre um jeito simples de tirar o estudante da posição de espectador.
Vamos começar com uma imagem. Na aula expositiva tradicional, aquela em que o professor fala e o estudante só escuta, a aprendizagem tende a ser passiva. O estudante recebe a informação sem refletir muito e sem integrar aquilo ao que ele já sabe. É como se ele fosse uma lata de depósito, um recipiente onde a gente vai empilhando conteúdo. E conteúdo empilhado, sem reflexão, costuma escorrer para fora com a mesma facilidade com que entrou.
Agora, eu sei como é a rotina. Preparar uma metodologia de aprendizagem ativa completa dá trabalho e exige um tempo de planejamento que nem sempre a gente tem. Então vai aqui a minha proposta mais realista: se você não consegue montar uma metodologia elaborada, pelo menos dê a sua aula de forma dialógica. Ou seja, ensine dialogando com a sala, fazendo perguntas, provocando e escutando.
Parece pouco, mas os ganhos são grandes. A aula dialogada aumenta a interatividade, que é uma das primícias das MAAs. Ela amplia o protagonismo dos estudantes, que é outra dessas primícias. Ela permite que você acesse, em tempo real, o estado de conhecimento da turma. Ela facilita o feedback e a correção daquelas concepções equivocadas, os famosos misconceptions. E ela mantém os estudantes em estado de alerta afetivo, atentos, o que favorece a aprendizagem.
Mas eu preciso fazer uma ressalva importante. Dependendo de como você conduz o diálogo, o nível de ansiedade da turma pode subir demais, e aí o tiro sai pela culatra. Então vale pensar com carinho na estratégia.
Você tem basicamente dois caminhos. O primeiro é fazer a pergunta e esperar que alguém responda espontaneamente. O risco aqui é conhecido: ou ninguém responde e o silêncio te deixa a ver aquele barco de arraste partindo do Porto de Santos, ou respondem sempre os mesmos estudantes, enquanto o resto da turma assiste de fora.
O segundo caminho é o cold calling, a chamada direta, quando você mesmo escolhe quem vai responder. Essa estratégia envolve todo mundo, mas cuidado, porque o nível de pânico sobe bastante quando o estudante sente que pode ser chamado a qualquer momento.
E é aqui que eu quero te deixar uma técnica. Para amenizar esse pânico, experimente o seguinte: faça a pergunta, dê um tempo de silêncio para todos pensarem e, em vez de apontar direto para alguém, faça uma seleção aleatória e leve. Pergunte, por exemplo, quem comeu macarronada no domingo passado? Ou quem almoçou no bandejão esta semana? Peça para levantarem a mão. E, dentre os que levantaram, você escolhe um para responder à pergunta de verdade. O clima fica mais leve, a escolha perde o ar de julgamento e a turma continua participando.
Então fica o convite para a sua próxima aula: escolha uma boa pergunta, dê um tempo de silêncio e traga para a conversa aquele estudante que quase nunca fala. Comece pequeno, com uma pergunta por aula, e vá aumentando. Você vai sentir a turma mudando de postura. Nunca rechaça uma resposta mal dada por qualquer estudante. Lembre-se: os estudantes precisam sentir que dialogar com você é um porto seguro sem julgamentos.
Era isso por hoje, aqui na Rádio Silva da Unifesp. Um abraço, e até a próxima pílula do Aprendizagem Ativa na Educação!
Exibido em 03/09/2026
Alô, alô, mente brilhante! Estamos começando mais um episódio da coluna Aprendizagem Ativa na Educação. Você já parou pra pensar por que, mesmo sabendo que aprendizagem ativa funciona e é mais eficaz, tanta gente ainda dá aula só de forma expositiva? A resposta é bastante óbvia: ensinar utilizando metodologias de aprendizagem ativa requer muito mais dedicação e horas de trabalho do professor.
Como a maioria de nós, docentes, temos de dedicar tempo para ensino, pesquisa, extensão e gestão, ensinar por metodologia tradicional expositiva é mais fácil porque só exige slide de power point e voz. Quem usa o método de ensino tradicional não está preocupado com a aprendizagem do estudante, mas com o conteúdo programático que deve ensinar.
Hoje eu quero trazer alguns dados de uma pesquisa publicada na PLOS ONE, que ouviu quase 3.800 professores de química, física e matemática nos Estados Unidos, justamente pra testar se as "desculpas" que a gente costuma dar e ouvir realmente se sustentam.
O estudo testou seis crenças comuns. Três eram sobre o contexto: turma grande é impeditiva? Sala de aula tradicional, com cadeira fixa, é impeditiva? E depender muito da avaliação do estudante sobre o professor impeditiva? Nos três casos, a resposta foi: sim, atrapalha. Turmas grandes, salas engessadas e peso excessivo na avaliação discente de fato reduzem o uso de metodologias de aprendizagem ativa. Nada muito surpreendente até aqui.
Mas os outros três fatores eram sobre o próprio docente: estabilidade no emprego, ou seja, ter estabilidade de cargo vitalício; nível de dedicação para as atividades de pesquisa; e ter tido contato com aprendizagem ativa como estudante. E aqui os resultados foram mais interessantes. Estabilidade no emprego, surpreendentemente, não fez diferença nenhuma, professor efetivo e professor substituto usam MAAs em proporções parecidas. Já ter vivido aprendizagem ativa como aluno, isso sim, aumenta bastante a chance de você reproduzir isso na sua própria sala. Ou seja, aquele professor ensina justamente como ele aprendeu.
E chegamos no questionamento mais comum na docência: tempo dedicado à pesquisa interfere na pedagogia do professor? O estudo mostra algo sutil e, pra mim, muito honesto: professores com carga de pesquisa mais alta, aqueles "muito ativos", com financiamento externo, publicações recorrentes, palestras frequentes em congressos, lecionam de forma mais tradicional expositiva, com menos aprendizagem ativa. Não é um efeito enorme, mas é consistente.
Só que tem uma reviravolta interessante: professores engajados especificamente em pesquisa sobre ensino, estudos de educação, escrita sobre prática docente, projetos de melhoria curricular, usam MAIS aprendizagem ativa, não menos. Ou seja, o problema não é "fazer pesquisa" em si. O problema é competição por tempo, sem suporte institucional. Quando a pesquisa e o pensar sobre ensino se cruzam, o efeito se inverte.
Isso bate com algo que eu sinto na pele: não é falta de convicção que nos afasta da aula com aprendizagem ativa. É falta de tempo garantido e destinado pra planejar aulas diferentes e inovadoras.
Então fica uma recomendação prática, pensando em nós, docentes, e também em quem pensa política institucional: se a universidade quer mais aprendizagem ativa, não adianta só cobrar do professor. Precisa de tempo garantido! Participar de grupos de aperfeiçoamento instrucional, de grupos de melhoria das disciplinas, mesmo que seja poucas horas por mês, já muda o padrão. E pra quem tá ouvindo e pesquisa bastante: talvez a saída não seja lecionar menos ativamente por falta de tempo, mas buscar estratégias ativas que peçam menos preparo de aula, coisas como Peer Instruction, que funcionam bem inclusive em turma grande.
No fim, o dado mais bonito desse estudo é esse: em todo contexto, sempre teve professor que driblou as barreiras. Isso significa que dá pra fazer diferente, só precisa de estrutura que facilite, não que dificulte.
Obrigado por nos ouvir até aqui. E vamos juntos construindo um ensino mais eficiente. Um abraço e até o próximo episódio!
Exibido em 20/08/2026
Olá, mente curiosa! Bem-vindos e bem-vindas ao Aprendizagem Ativa na Educação, o podcast em pílula onde as ciências da aprendizagem dialogam com a sala de aula. Hoje, vamos desvendar o que acontece dentro da nossa cabeça quando estamos aprendendo de forma ativa. Será que aquela aula tradicional, com o professor falando e o estudante apenas anotando, é a melhor forma de assimilar o conteúdo?
E indo direto ao ponto científico: o nosso cérebro odeia a passividade. Quando o estudante é colocado no papel de agente ativo, ou seja, quando ele precisa tomar decisões e explorar conceitos por conta própria, nós ativamos circuitos biológicos cruciais de aprendizagem por reforço. Isso dispara sistemas de recompensa intrínseca ligados à curiosidade. É um sinal químico para o córtex cerebral de que aquela informação é valiosa e precisa ser convertida em memória de longo prazo.
Quando o professor simplesmente explica o assunto do início ao fim, funciona para introduzir regras e contextos básicos, mas tem um limite severo. Quando a instrução é puramente direta, longa e expositiva, nós sobrecarregamos a chamada memória de trabalho do estudante. Ela é parecida com a memória RAM de um computador: tem capacidade muito limitada de processamento simultâneo. Se jogamos conteúdo demais ali, ela simplesmente transborda e a informação se perde. Já as atividades baseadas em aprendizagem ativa ajudam a recrutar redes neuronais adicionais, distribuindo essa carga e facilitando a categorização do conhecimento.
E qual é o papel do erro nisso tudo? Porque, culturalmente, nós detestamos errar na escola, não é?
Neurologicamente falando o erro é uma joia! A aprendizagem mais robusta acontece através do que chamamos na ciência de dificuldades desejáveis. Quando tentamos resolver um problema complexo e erramos antes de receber a resposta correta, o cérebro gera um forte sinal neural de monitoramento de performance. Esse "choque" de perceber uma falha na própria previsão força a ativação de redes corticais profundas. O processo de errar e corrigir molda o pensamento de ordem superior e a nossa capacidade de generalização. E aprender usando MAAs naturalmente te expõe a situações onde haverá erro e conflito cognitivo.
Sabe-se que a aprendizagem ativa promove uma maior integração funcional entre as redes de controle executivo, atenção, saliência e memória do que abordagens instrucionais passivas, que dependem relativamente mais dos sistemas de processamento perceptual e da linguagem. Em vez de refletirem a ativação de uma única rede neural, a aprendizagem ativa depende das interações dinâmicas entre múltiplas redes cerebrais de larga escala. Isto é, quando estamos realizando aprendizagem ativa diversas regiões do nosso cérebro são ativadas e se integram.
Além disso, uma das primícias da aprendizagem ativa é a interatividade e colaboração com os pares. Debates e trabalhos em grupo ativam circuitos de recompensa associados a estímulos sociais positivos. A cooperação mútua gera uma carga emocional que age como um supercola para a plasticidade sináptica, que é a capacidade do nosso cérebro de moldar os caminhos neurais de acordo com o estímulo. Se associarmos isso ao espaçamento temporal, ou seja, rever o assunto sob diferentes prismas ao longo dos dias, garantimos a consolidação biológica definitiva do que foi estudado.
Resumo da ópera: Instrução clara para começar, mas muita prática, autonomia e interação social para o conhecimento realmente fincar raízes duradouras.
Muito obrigado por nos escutar e nos vemos nos próximos episódios.
Exibido em 06/08/2026
Olá, mente inquieta! Seja muito bem-vindo, seja muito bem-vinda à nossa nova coluna de Educação e Metodologias de Aprendizagem Ativa. Se você estuda ou ensina, ou simplesmente gosta de aprender o tempo todo, esse espaço é dedicado a você!
Vamos começar com uma reflexão sobre aprender nos tempos atuais? Pensa comigo: vivemos em um mundo moderno e tecnológico, a gente usa inteligência artificial para fazer tudo, pede comida por aplicativo, resolve a vida pelo whatsapp ... mas a estrutura da maioria das salas de aula por aí ainda é a mesma do milênio passado. Um professor lá na frente falando por horas, e uma fileira de alunos sentados, estáticos, fingindo que estão prestando atenção enquanto o feed das redes sociais parece infinitamente mais interessante.
Essa é a famosa metodologia tradicional. O estudante é um mero receptor passivo. O conhecimento é "transmitido", como se a mente fosse um balde vazio a ser preenchido. Já dizia Paulo Freire: é uma educação bancária, onde os estudantes são tratados como depósitos. Spoiler: não funciona mais.
É aqui que entram as Metodologias de Aprendizagem Ativa. E não, isso não é apenas um termo bonito de pedagogia. É uma inversão completa do jogo.
Na aprendizagem ativa, o foco sai do "ensinar" e vai para o "aprender". O estudante deixa de ser plateia e vira o protagonista, o construtor do próprio conhecimento. Em vez de só ouvir, ele resolve problemas reais, debate, cria projetos, analisa casos. O professor não some, tá? Ele ganha um papel muito mais nobre: deixa de ser o "dono da verdade" na frente do quadro e vira um mentor, um facilitador que guia essa jornada.
Mas por que as metodologias de aprendizagem ativa funcionam melhor?
Simplesmente porque, ao contrário da aula tradicional expositiva na qual o estudante pensa de forma automatizada e tem pouco tempo para fazer integrações cognitivas, nas MAAs, os estudantes vivem situações de conflitos cognitivos que modulam regiões cerebrais de forma difusa porém coordenada.
Mas o ponto mais urgente, e que pouca gente discute, é o impacto disso na redução das desigualdades educacionais.
Quando a escola se baseia apenas na aula expositiva pura, ela beneficia quem já tem uma estrutura de apoio em casa, estudou em escolas de elite, quem tem acesso a livros, repertório cultural ou suporte familiar para estudar depois. A metodologia de aula tradicional pune quem tem ritmos de aprendizagem diferentes.
Já as metodologias de aprendizagem ativa, como a aprendizagem baseada em problemas e aprendizagem baseada em jogos, criam um ambiente de cooperação. Os estudantes trabalham em equipes, ajudam-se mutuamente e aplicam o conhecimento ali, na prática, onde o professor está perto para dar o suporte necessário. Pesquisas já mostram que esse formato reduz drasticamente as taxas de reprovação e nivela o aprendizado, puxando para cima aqueles estudantes que o sistema tradicional costuma deixar para trás. É a pedagogia da equidade.
Nas próximas semanas, a gente vai desmistificar as ferramentas práticas disso e partilhar mais conhecimento para você aprender melhor e ensinar com excelência ... tudo sem complicação.
A gente se vê na próxima semana. Até lá, mantenha sua mente ativa!